Revista Salvador Mix

A fala de Jerônimo e o desafio de enterrar o ódio sem enterrar o debate

A recente declaração do governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues (PT), em que afirmou ser necessário “enterrar numa vala os eleitores do ex-presidente Jair Bolsonaro”, provocou ruído político imediato. Fora de contexto, a frase soou agressiva. Mas quando se analisa o discurso como um todo, torna-se evidente que o governador usava uma figura de linguagem — uma metáfora sobre enterrar um ciclo marcado por intolerância, radicalização e exclusão.

Vivemos tempos em que as palavras têm peso dobrado, especialmente quando proferidas por figuras públicas. E é justamente por isso que declarações simbólicas, como a feita por Jerônimo, merecem ser interpretadas com o cuidado que o contexto exige. Não se trata de um chamado à violência, como sugerem seus críticos mais ferrenhos, mas de um apelo à superação de práticas políticas que colocaram brasileiros uns contra os outros nos últimos anos.

Jerônimo Rodrigues é um homem de trajetória simples, professor de origem rural, com vínculos profundos com a cultura popular e religiosa da Bahia. Seu governo tem buscado justamente caminhar na contramão da exclusão — seja valorizando as comunidades quilombolas, seja reforçando a presença do Estado em regiões historicamente esquecidas. Suas ações têm falado mais alto do que qualquer frase isolada.

Transformar esse gesto simbólico de superação em discurso de ódio é, no mínimo, desonesto. Trata-se de um esforço claro de parte da oposição para deslegitimar um governo que tem incomodado setores mais conservadores por sua política voltada aos marginalizados. Não é a primeira vez — nem será a última — que metáforas são distorcidas em prol de narrativas oportunistas.

O episódio revela algo maior do que uma polêmica passageira: a dificuldade que o Brasil ainda tem de fazer uma crítica ao bolsonarismo enquanto fenômeno ideológico, sem que isso seja automaticamente confundido com hostilidade a seus eleitores. São coisas diferentes. Questionar ideias que promovem o ódio, a intolerância e a exclusão é um dever democrático. Defender o respeito aos indivíduos, inclusive aqueles com quem discordamos, é igualmente essencial.

No fim das contas, o que Jerônimo propõe — com palavras fortes, é verdade — é enterrar o que nos separa e cultivar o que nos une. Enterrar o preconceito, a violência, a indiferença diante da dor do outro. E plantar em seu lugar empatia, escuta e reconstrução coletiva.

É hora de parar de distorcer metáforas para fins políticos. O Brasil precisa, sim, de coragem para enterrar o ódio. E isso, definitivamente, não significa enterrar o debate — mas qualificá-lo.

 

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